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acervo 

O Acervo Estopim surgiu do desejo de compartilhar livros e publicações em um espaço comum, criando um contexto afetivo e ampliando o acesso a esse tipo de produção. Muitas dessas obras raramente são encontradas em bibliotecas convencionais devido aos seus formatos e materialidades experimentais, pois não se enquadram nas normas tradicionais de catalogação e organização de acervos.

 

Com cerca de 1400 itens, o Acervo Estopim é constituído por doações e aquisições. Reúne publicações, cartazes, adesivos, zines, cartões-postais, jornais, livros de artista, fotolivros, gravuras

e outros formatos impressos.

 

Em 2025, o acervo passou por um processo de higienização e reorganização, com o objetivo de aprimorar o acondicionamento e a preservação dos itens. Coordenado por Joanes Barauna e com assistência de Arthur Ruiz, o trabalho utilizou materiais adequados às características heterogêneas do conjunto, respeitando as especificidades de cada formato, suporte e técnica.

 

Neste link, você pode conhecer mais sobre o processo de catalogação do acervo.

Catalogando memórias

 

Afinal, o que é uma publicação de artista? Para alguém que estava acostumada com livros tradicionais, foi completamente desnorteador entrar em contato com centenas de peças de um acervo desconhecido, que se apresentava em dezenas de formatos diferentes. Esse foi o começo da minha experiência com a Estopim, quando Luana e Guilherme me ofereceram a oportunidade de catalogar o acervo. Nunca tinha me deparado com algo assim antes e, quando entendi a dimensão da minha empreitada, me dei conta de que eu não tinha como catalogar algo que eu não sabia o que era, e cabia a mim desvendar esses materiais, alguns cheios de mistérios. 

O acervo foi concebido graças a uma tradição de generosa contribuição que ocorre ao final de todas as Feiras Estopim. Segundo essa prática, expositores/as doam exemplares de publicações às pessoas organizadoras, o que, após dez anos, resultou em um acervo extenso e diverso em seu conteúdo. Por seu tamanho, era necessário uma sistematização mais apurada para organizá-lo. Foi assim o meu primeiro contato com a Estopim, colocando as mãos nessas páginas cheias de histórias até então desconhecidas para mim. 

Naquele momento, estava organizado por assuntos em comum, de modo que haviam sido delimitadas categorias como histórias LGBTQIAP+, pesquisas de artistas, Brasil e outras, nas quais as publicações eram agrupadas por tópicos temáticos convergentes, por mais que variassem em formato. Assim, a categoria histórias LGBTQIAP+ continha fotolivros, zines, bottons  etc. Essa metodologia, ainda que sensível, se tornou difícil de manter quando percebemos a dimensão do acervo. Como uma coleção particular, ele pedia por um arranjo mais afinado, pois muitas das publicações, múltiplas em si mesmas, abrangiam diversos assuntos e dependiam de uma interpretação pessoal para que pudessem ser postas em uma ou outra categoria. Além disso, um dos pontos essenciais do acervo e das publicações é o acesso, que elas possam ser passadas de mão em mão, o que nos fez pensar sobre uma maneira mais eficiente de nomear as categorias e de manejar esses objetos.

Assim, foi decidido que tomaríamos um caminho mais tradicional e dividimos as categorias conforme sua natureza: publicações, traduções, zines, fotolivros, pesquisas acadêmicas, revistas, cartões, postais e múltiplos. Dentro de cada categoria, foram apontadas as informações básicas e essenciais, como título, autoria, ano de publicação, local e palavras-chave; tudo isso em uma “simples” planilha de excel. Foram somente esses pormenores que tornaram possível ordenar os mais de mil itens e, mais importante, reorganizá-los depois que os/as visitantes do acervo revirassem tudo semanalmente, com muito carinho, porque alguém tinha que fazer o trabalho de recolocar as publicações na estante. 

 

O acervo também contava com produções mais tradicionais, principalmente gravuras, fotografias, impressões e objetos, sendo que tudo isso e mais caía na denominação de Múltiplos. Além da planilha, que era atualizada diariamente, a catalogação também se deu pela atribuição de códigos e por um registro fotográfico do item para que, quando precisasse achar uma publicação específica, eu soubesse onde ela estava e qual era sua aparência. 

Esses artifícios, embora indispensáveis, nem sempre faziam jus às características singulares desses trabalhos. O que é, de fato, uma publicação de artista? Ela é livro, mas ultrapassa as noções básicas de um livro. É trabalho artístico, experimentação gráfica, e muitas vezes possui uma pequena tiragem, buscando difundir a informação e não a restringir. Como não é um formato tradicional de literatura, não tem a mesma quantidade de burocracia e procedimentos presentes na criação de um livro em uma editora. Isso acarretou a primeira dificuldade no processo para mim. Justamente por seu caráter artístico, faltavam informações essenciais em muitos itens, como autoria e a data.

 

Compreendo que muitos desses trabalhos só existem conosco, sendo de tiragem única, e pode acontecer de termos publicações que foram enviadas por terceiros/as através dos Correios ou que recebemos como doações, sem que seus/suas autores/as soubessem que seu trabalho veio parar em nosso acervo. Algumas publicações até forneciam sites e formas de entrar em contato com os/as criadores/as, mas em muitos casos o link já havia expirado ou os sites/e-mails nem existiam mais. 

Muitos desses trabalhos não identificados foram recebidos durante a pandemia. Diversas publicações enviadas pelos Correios passaram a integrar o acervo, fazendo o número de itens crescer rapidamente com trabalhos que não tinham conexão direta com a Estopim. Foi assim que adquirimos publicações menos centralizadas no sul do país, limite regional que até então permeava a catalogação, exceto por poucas exceções.  

Outro desafio que enfrentamos foi a administração de nossa própria classificação. Muitos trabalhos continuaram numa espécie de limbo. A divisão por natureza, ainda que eficaz, não é infalível, e acabei me deparando com trabalhos que poderiam ser classificados como dois ou até três tipos diferentes de publicação. Um ótimo exemplo disso é a “revista” Rébus, publicada pela Editora Voadora por Thais Medeiros desde 2009 no Rio de Janeiro (RJ), que a cada volume assumia um formato diferente, fosse zine, postal, revista tradicional ou objeto múltiplo. Nesse caso, deveria me obrigar a limitar sua multiplicidade, categorizando todos os volumes juntos como revista, ou deveria separá-los? Por diversas vezes tive que priorizar a acessibilidade de quem visitasse nosso acervo, colocando em primeiro lugar o entendimento de alguém que estivesse absorvendo tudo isso pela primeira vez. 

Apesar da quantidade de materiais, mais de mil itens, nada desanimou minha vontade de continuar. Foram quase oito meses de catalogação e, toda vez que eu pensava que havia terminado, chegava mais uma remessa de doações para enriquecer ainda mais o acervo, tanto de autores/as conhecidos/as da Plataforma nos enviando seus trabalhos mais recentes, quanto de artistas-estudantes ansiosos/as para integrarem um acervo.

O acervo, em sua concepção, abrangia obras criadas a partir do ano de 2010 em diante, mas em 2025 recebemos toda a coleção pessoal de publicações da querida artista Ana González, doada após o seu falecimento. Então, voltei à jornada de classificação para lidar com o acervo de uma vida inteira inserida no meio artístico, já que Ana foi diretora do Solar do Barão/Museu da Gravura por anos. Nessa leva, nosso repertório começou a incorporar obras que vinham desde os anos noventa, enriquecendo-o com a passagem de diversos/as artistas renomados/as na área da Gravura e da Publicação, incluindo obras da própria Ana. 

Com o crescimento da quantidade de itens catalogados e de visitas ao acervo por parte de grupos de estudo, universitários/as e professores/as, tornou-se necessário iniciar o processo de higienização para que essas obras pudessem continuar sendo manipuladas. Esse procedimento ocorreu de maneira simultânea ao constante fluxo de pessoas que colocavam as mãos nas publicações, visto que a ativação de todas essas histórias guardadas ocorreu por meio da realização de um grupo de estudos direcionado e de uma exposição que investigava tudo isso de que estamos falando, denominada Escrever sobre Areia- ambos coordenados por Isadora Mattiolli e inseridos na programação do projeto de lei de incentivo PROFICE da Plataforma Estopim em 2025. O sistema de etiquetação que tinha sido adotado, utilizando meros post-its, com o tempo começou a falhar. As peças do acervo que estavam fragilizadas necessitaram de um tratamento especial, o que foi essencial para a preservação longeva dos trabalhos. 

Hoje, o acervo conta com aproximadamente mil cento e quarenta e nove itens, sendo  quatrocentos e doze classificados como múltiplos e setecentos e trinta e sete se encontram na categoria de publicações. Um acervo singular em sua natureza, reunido e entendido também como conjunto da história de publicações de artistas no Brasil. Hoje, essa rede de colaboração e resistência se encontra materializada no conjunto desses trabalhos, atingindo uma importância nacional quanto à democratização de seu acesso e ao registro de tudo aquilo que já aconteceu e ainda está por vir.

 

Daniela Panisson

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